Entre a luta de classes e a síndrome de Estocolmo (Lado B).
Mas sobre esse mesmo fato há um outro aspecto a considerar. Não, não é o do discurso da meritocracia, sob o mote “cada um que lute, as oportunidades estão aí para todos”, que de tão ultrapassado penso ser desnecessário tratar. A reflexão que quero trazer é de que, nesse mesmo espaço de sociabilidades, que é o boteco, e nessa mesma relação garçom/clientes, se identifica uma certa “síndrome de Estocolmo”.
Explico. É que esses modernos vassalos, em sua resistência ou insurgência silenciosa, dirigem sua artilharia, ou, mais realista, miram seu estilingue, atiradeira, baleadeira, ou badogue, justamente contra o alvo que lhe parece mais fácil: o low profile, cool, tranquilo, que não grita nem faz escândalo, e que apela até a uma improvável sucessão de “por favor”.
Paradoxalmente, por aquele típico representante da elite do atraso, com sua empáfia e arrogância explícitas, que não lhe permitem sequer olhar a quem lhe serve, por este o garçom lhe tem um temor reverencial. Entre o medo e uma estranha afeição, sente-se capturado, e capitula. E tudo de uma forma automática, quase natural, sem sequer questionar o porquê.
Essa é parte ínfima, mas observável, do microcosmo do boteco, reflexo da nossa sociedade. E não se pode esperar deles, os garçons, serem os heróis a se rebelarem contra a elite do atraso, enquanto nós, em alguma medida até também membros dessa mesma elite, observamos impávidos. Vamos nos unir no protesto de quem não pretende sequestrar para ter a atenção. Mostrar que ainda vale a pena ser educado e tratar bem a todos, crendo que seremos, senão absolvidos, ao menos reconhecidos por isso. Civilizados de todos os países, uni-vos!
https://www.youtube.com/watch?v=k8lAoPEfyEs