O ciclista e o pedreiro

 

Ciclovias representam um desses sinais de que a cidade está no caminho certo: melhoram a mobilidade urbana, não poluem, sem contar os benefícios que a tração humana sobre rodas traz à saúde. Não importa se quem pedala o faz com ou sem destino certo, se o uso é profissional ou recreativo: se há uma ciclovia à margem de uma avenida ou rodovia, deve-se utilizar aquela e não estas, certo? Não é bem assim.

Em qualquer cidade brasileira, qualquer pessoa que prestar atenção já deve ter percebido que não é raro ver ciclistas ignorarem solenemente a via que foi feita exclusivamente para eles, e trafegarem sobre a pista de rolamento, disputando espaço com veículos motorizados. Exemplo disso é o que se vê na extensa via que margeia as praias urbanas de Aracaju, desde a Coroa do Meio até o Robalo. Ali se construiu uma longa ciclovia, paralela a uma rodovia cuja velocidade máxima permitida chega a nada desprezíveis 60 km/h. Certo dia tomei um café com um amigo que sei que pratica o ciclismo amador, e aproveitei então para lhe perguntar o porquê desse comportamento que me parecia meio irracional.  Resposta:  as bicicletas sobre a ciclovia são lentas e “atrapalham” quem quer trafegar mais rápido.

Diante da resposta, lembrei-me dos lamentáveis casos de atropelamento de pessoas que utilizam bicicletas, dentre os quais não são poucos os que ocorrem pela extrema violência no trânsito, marcada pela imprudência de motoristas que fazem do veículo extensão do que supõe ser seu instrumento de poder. E também me dei conta de como variam as formas como esses atropelamentos, não apenas são divulgados em redes sociais, como são noticiados pela imprensa: “ciclista é atropelado”; “trabalhador é atropelado” são duas dessas variações.

Não é necessário nenhum esforço de semiótica para associar a imagem do que se quer dizer com ciclista, em comparação com o simples trabalhador.  De um lado, há aquele paramentado, para sua segurança, saúde e boa forma; de outro lado, há aquele que tem na bicicleta seu único meio de locomoção. Em geral é àquele, e não a este, que se costuma chamar de “ciclista”. Ambos, no entanto, têm em comum, por um lado, o inalienável direito de ser respeitado em sua vida e em sua integridade física; e por outro lado, o dever de observar as mesmas regras, inclusive quanto ao uso da ciclovia, quando existente.

Ou seja: Ciclovia não foi feita apenas para o pedreiro, assim como a pista não foi feita para o ciclista, quando há uma ciclovia ao lado. Por trás do comportamento de quem, numa bicicleta, prefere o risco entre os carros à segurança da ciclovia, está também o desejo de se sentir, senão superior, ao menos especial e diferente em relação ao outro. Mais um sintoma de uma sociedade marcadamente classista, que neste caso, pelo perigo associado, ultrapassa o limite da cafonice do vip, do lounge e do premium.

Os paramentos do ciclista não lhe tornam imune à imprudência, não apenas alheia como própria. Insistir num comportamento tão perigoso quanto insensato, se nada tem a ver com preconceito ou pretensão de privilégio de classe, constitui ao menos distorção cognitiva a ser investigada por profissional competente.

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