Entre a luta de classes e a síndrome de Estocolmo – Lado A

Entre a luta de classes e a síndrome de Estocolmo – Lado A.
Os frequentadores de boteco, como eu, sabem que nele existe uma instituição, uma entidade que, como canta(va) o Skank, são chamados de Comandante, Capitão, Tio, Brother, Camarada, Chefia, Amigão, e por aí vai. Chamemos pelo nome que for, ele vem quando quer, se vier. Não é que seja um mar de rosas em outros tipos de estabelecimentos sob o guarda-chuva da ABRASEL – sigla que os empresários do ramo bem conhecem. Mas a peculiaridade do boteco é que eles são demandados a torto e a direito, repetidas e repetidas vezes, quase sempre para servir a mesma coisa, porque acaba rápido – a “gelada”.
Esse é um lado da história. O lado nosso, cliente, que senta, chama, pede, reclama, atropela a fala do outro, abraça, levanta torto, mas sempre com destino certo, para depois voltar, sentar, e repetir todo o ciclo, dessa vez em outra ordem, e quem sabe adicionando novas casas: chora, lamenta, gargalha, canta, xinga, pede música…
Mas voltemos à nossa instituição agora chamada pelo seu nome de batismo – o garçom. No boteco, ele é a autoridade de fato, tal qual muitos dos seus clientes são, fora dali, a autoridade de direito, e a mesma que, quando em seu ambiente de poder, trata aquele (o garçom) com indiferença, para dizer o mínimo. Mas no boteco, é a vez dele, quando chamado a servir o doutor, sinalizar com os olhos ou com a mão aquele “espere aí”, “atendo quando puder”, ou simplesmente da forma mais comum: ignorando, fingindo que não viu, nem ouviu. Porque fora daquele microcosmo do boteco, assim que tira sua calça preta e sua camisa branca, o garçom passa a ser invisível pelos que antes lhe implorava um olhar.
Como costuma dizer o historiador, compositor e escritor Luiz Antônio Simas, o boteco é um espaço de sociabilidades. E por isso mesmo, agora ouso dizer eu, com toda a liberdade que o leigo tem de dizer o que acha sem ter que provar nada, o bar é um microcosmo da nossa sociedade, ainda marcada por seu passado escravista, e por uma cultura ainda presente e de natureza bem semelhante. E é na reação a esse passado e a essa cultura que se identifica uma resistência silenciosa, disfarçada, negada, desigual, enfim, uma luta de classes contemporânea.

O garçom é apenas um símbolo desse tensionamento. O empregado doméstico, o lavrador, o peão, o pedreiro, o ajudante, o “cordeiro” (dos blocos), todos têm em comum, em geral, o trabalho em posição servil, a baixa qualificação, alimentada pela informalidade ou por salários que beiram a indignidade, ou pelas duas coisas ao mesmo tempo. São todos representantes do que Jessé Sousa chama de “ralé dos novos escravos”, em seu excelente “A Elite do Atraso”: “…a grande questão social, econômica e política do Brasil é a existência continuada dessa ralé de novos escravos. Nenhuma outra questão é mais importante e nada singulariza mais o Brasil do que ela.” E a expressão “ralé dos novos escravos”, esclareça-se, designa não o que verdadeiramente são – trabalhadores dignos – mas como são tratados. O patrão, por outro lado, se vê como o empresário que faz o país crescer, e por isso merecedor não apenas de todo o reconhecimento, mas até de gratidão.
Essa reflexão não se pretende mais do que um exercício de empatia, incitando a que se compreenda melhor que, se para nós a vida não anda fácil, para aquele “amigão”, menos ainda. Compreender que, para quem segura o cabo de guerra do lado mais fraco nem sempre é fácil manter o sorriso e o bom humor.